A PRESENÇA DA FORÇA ANCESTRAL EM UM CORPO PERIFÉRICO POR MILE LAB






A PRESENÇA DA FORÇA ANCESTRAL EM UM CORPO PERIFÉRICO



Acredito que uma coleção de moda é a construção e desenvolvimento de um conjunto de roupas que vão contar uma narrativa. O tecido foi a ferramenta que escolhi para contar histórias e vivencias de um corpo marginal.

A história que a MILE LAB contará dessa vez é sobre a potência que esse corpo periférico estabelece com seu físico, mental e espiritual quando a força ancestral se faz consciente e presente dentro de si.

Antes de qualquer coisa, vale ressaltar sobre a desumanização, o silenciamento e esvaziamento de nossa cultura que vem ocorrendo por séculos. Pois quando a gente fala sobre antepassados e ancestralidade na quebrada, o mais longe que uma preta periférica pode chegar é aos fatos que leu nos livros didáticos durante sua vida estudantil - um passado amargo de dor e escravização contados através de vozes que não sentiram o impacto dessas dores.



A MANIFESTAÇÃO ANCESTRAL EM NOSSO COTIDIANO


Já se perguntou sobre o que forma seus gostos? Sobre os costumes e conhecimentos da sua família, que você consequentemente absorve? Acredito na Ancestralidade como uma forma de magia, e acredito mais ainda na magia que acontece na sutileza das coisas. Afinal, não vivemos em nenhum mundo de Hogwarts, com vassouras voadoras e varinhas.

A magia está na possibilidade de contar histórias através do samba, está no chá de gengibre, limão, mel e casca de cebola para sua gripe; na babosa macerada com arruda pra curar aquela ferida. A magia se faz nos terreiros, quando você contempla uma entidade dançar, quando se senta perante um espirito de luz que viveu muitos séculos atrás para poder te aconselhar, te fazer ver o seu real valor e sentir o que deve ser sentido. Isso é magia.

E é através dessa magia, que a ancestralidade se mantém viva. Não é atoa nem em vão aquele costume de comer feijoada aos sábados, nem todo o cuidado na hora de seu preparo. Não é atoa que a favela inteira se joga em uma bom domingo de samba na praça, ou que a base da construção do funk está naquele toque poderoso do congo de ouro que sai de um atabaque.

Nesse momento, o maior intuito é valorizar, exaltar e disseminar esses saberes entre essa nossa geração, para que a nossa ancestralidade se mantenha viva e que não se perca em meio a tantos aparelhos e informações que muitas das vezes nos distanciam da nossa verdade.


A CONEXÃO ENTRE A HISTÓRIA, O CONTEXTO SOCIOCULTURAL E A MODA ATRAVÉS DAS RAÍZES DE UM BAOBÁ.



A narrativa por trás dessa nova coleção, é falar exatamente sobre esse ponto da vida onde alguém se conecta com sua força ancestral e resgata os saberes do passado para fortalecer a si e a sua comunidade; é compreender como essa força permeia dentro de um corpo periférico nos dias de hoje, assim como a força de um Baobá que carrega outras vidas além da sua própria, unificando-se a elas e se tornando um.

Refletindo sobre a grandiosidade disso, vem os questionamentos de quais são as formas, os hábitos, os anseios, as mudanças e todos os meios e recursos utilizados por esse indivíduo para manter acesa dentro de si e em seu cotidiano, essa chama.

Acredito que a reflexão, a busca, os fundamentos, estudos e sobretudo a capacidade de se obter essa gama de respostas de uma forma intuitiva, orgânica e fluída seja a base para construir um projeto sólido.

O intuito não só da nova coleção, mas da marca como um todo é aproximar a quebrada, principalmente no que diz respeito ao Grajaú, de narrativas que tragam esse elo, essa proximidade, e esse sentimento de pertencimento com a história que não é contada para nós na infância. Uma vez que retomamos com propriedade as linhas da nossa história, não há quem seja capaz de nos apagar.

A partir disso, o papel da MILE LAB é perceber o território que esse corpo percorre, vesti-lo em seu estado físico, emocional e espiritual onde ele despertou esse axé. O propósito maior é compreender o contexto sociocultural que vivemos, resgatar as raízes ancestrais, unifica-las com o vestuário dos dias atuais conectando esse presente com o passado através de leituras, vivencias pessoais e coletivas, e utilizando da analogia para que haja uma ressignificação da moda marginal na contemporaneidade, agregando um valor simbólico e tangível para a cultura local.


Esse foi o desdobramento criativo da nova coleção 2021 Baobá – Mile Lab sob um olhar sensível ao processo intuitivo.

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