Moda Marginal - Uma identidade Periférica





A moda como compreendemos hoje, é um dos mais diversos veículos de comunicação, é o meio que somos capazes de nos expressar. É através dessa ambiguidade entre arte e indústria que temos o reflexo da história. E qual é a história da quebrada? O que a periferia tem expressado nos últimos anos?


Por muito tempo a classe dominante ditou a moda, impôs a “tendência” e decidiu quem a usa. A classe proletária por sua vez tendia a copiar e reproduzir essas tendências de formas baratas. Reflexo disso é a cultura das roupas pirateadas, as lojinhas do “10” com estampas da Chanel e Louis Vuitton por todas as quebradas possíveis. E o grande intuito dessa classe dominante é deixar em evidência quem tem e quem não. Entra-se então em um ciclo onde a elite produz para se distinguir, e o povo reproduz para acompanhar. Ciclo esse que anos após anos incentiva a segregação e a desigualdade.


A reprodução inconsciente dessa cultura eurocêntrica afastou a nação brasileira da sua verdadeira narrativa. Por mais de dois séculos foram impondo valores que não são nossos, uma beleza que não é nossa, uma percepção de mundo que não condiz com nossa realidade e nossas subjetividades. E isso nada mais é do que consequência da bruta tentativa sistemática de tentarem apagar e silenciar nosso passado.



O QUE A MODA MARGINAL COMUNICA ?


Hoje a periferia vem se reencontrando e se percebendo quilombo. A cada dia se conectando com a diáspora, tomando consciência da grande riqueza que temos como povo, como cultura. A partir do momento que alguém assume para si esse lugar periférico, entende que somos todos filhos do mesmo território, estamos todos a MARGEM da sociedade, o que nos torna todos marginais. E que possamos mostrar o que é ser marginal, de ser criado com a força das águas nos entornos de nossas casas. Um exemplo é o tio que pesca na represa, ele é o sinônimo de marginal. Ele vive na margem, pela margem, onde através da pesca, alimenta a família e ganha o pão de cada dia.


A moda marginal é uma expressividade do ser que atravessa a barreira da estética, e vai muito além da indumentária. Ela é a própria cultura, política, a linguagem periférica, a possibilidade das pessoas que vivem dentro da quebrada de se vestirem com legitimidade, de valorizarem seus corpos, compreenderem sua história por meio da própria vestimenta.


A Carol Barreto em uma entrevista para o Canal Preto, disse que '' Roupas são peles sobrepostas as nossas peles'', e me fez pensar que se precisamos vestir nossos corpos, que possamos vesti-los com nossa própria identidade.


A moda marginal está aqui para ocupar e edificar espaços, vestir nossos corpos políticos e registrar a luta de resgatar todos os dias nossos valores. Ela é um espelho das nossas raízes ancestrais. É um pilar que sustenta a economia solidária. Entendemos que a moda é cíclica, que ela a cada década vem se “renovando”. Buscando no passado referências para continuar se sustentando. Mas a moda marginal não resgata referência, resgata nossa ancestralidade, nossa essência.

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