Nos Bastidosres da Moda

ONDE ESTÁ O GLAMOUR?




É inevitável pensar em moda e não associar essa área com todo glamour que ela tenta passar ao seu público e ao mundo como um todo. Mas você já se perguntou se realmente existe esse glamour trás das passarelas?


Tive a oportunidade de trabalhar em alguns backstages na 43ª edição da maior semana de moda SP (SPFW) e pude compreender aquele universo do quão eu tinha tanta vontade de fazer parte. Lá eu trabalhei como camareira durante todos os dias, e percorri por varias marcas renomadas no marcado nacional e internacional. Quando caiu a ficha do que era realmente aquele ambiente, foi um processo bem cruel. Mesmo sem ter muita noção da dimensão disso na época, eu entendi que não era bem aquele espaço que eu queria para mim, ele não contemplava os sonhos de uma jovem periférica com todas as suas subjetividades de crescer no ramo da moda.


Pensei comigo que seria uma ótima oportunidade de estar em contato com pessoas mais experientes e aprender com elas, mesmo que sendo apenas uma observadora. Mas acabei me deparando com pessoas absurdamente arrogantes e sem preparo algum para lidar com o ser humano. De toda forma, sinto que eu realmente aprendi, mas aprendi que não era aquela profissional que eu queria me tornar, que precisava fazer diferente.


Hoje eu acredito e dedico o meu trabalho na transformação positiva dessa indústria, desde os meios e recursos necessários para desenvolver e criar uma coleção até chegar aos profissionais envolvidos para realizar um projeto. Acredito na possibilidade de construir um lugar que contemple as pessoas, que as façam sentir amadas, cuidadas, com teus corpos devidamente respeitados. Construir um ambiente que tenha espaço para dar oportunidade e possibilidades às pessoas que dificilmente veríamos sendo escaladas para formar uma equipe.

REPRESENTATIVIDADE PARA ALÉM DAS PASSARELAS


Com as experiencias que vivi em alguns bastidores, me via muito feliz por ver diversas modelos pretas desfilando, mas me perguntava também onde estavam maquiadores, cabelereiros, produtores, estilistas e stylists pretos? Não os encontrava. Muito do que se encontra nos bastidores é a precarização e desumanização do trabalho de muitas pessoas pessoas, sejam elas modelos ou camareiras.

Para além das passarelas – um espaço importante que conquistamos – é necessário que encontremos pessoas pretas, indígenas, LGBTQIA+ com toda a sua capacidade e profissionalismo em posições que hoje só enxergamos a branquitude dominando.


Ter construído a Mile Lab, me possibilitou criar esse território que parecia ser uma utopia, de dar lugar a muitas vozes para manifestar sua arte, trabalhando em rede, buscando priorizar sempre profissionais periféricos que normalmente não seriam contratados por essas grandes marcas, para formar equipes, construir elos e podermos juntes ter um excelente desempenho e mostrar o melhor que fazemos com os recursos que temos. Fugir dessa visão ocidental, nos possibilita criar um lugar humanizado, alegre, dinâmico, orgânico e seguro para as pessoas.


Falando como uma mulher preta, sapatona e periférica, é uma conquista grandiosa ser minimamente responsável por transformar, ressignificar e aproximar esse universo tão distante que é a moda às periferias. Possibilitando maquiadorxs, modelos, fotografxs, performances e produtorxs de mostrarem seus respectivos talentos.

Em nome de todes digo que, onde não pudermos ocupar, nós edificaremos nossos próprios espaços.

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